
Liderança em tempos de mudança
Carolina Menezes · CEO, Grupo Vértice
Como conduzir uma companhia industrial durante uma reestruturação: escolhas de portfólio, conversas difíceis e o papel da comunicação interna.
20/08/2026 · 48 min
Episódio 22
Bruno Tavares — Sócio, Alqueire Capital
Um investidor explica por que teses B2B concentraram os cheques do último ano e o que ele passou a exigir antes de investir.
13 de agosto de 2026 · 41 min
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Ouvir narração com IA
O dinheiro mudou de lado · 41 min
Resumo do episódio narrado por voz sintética a partir do roteiro editorial.
Diálogo integral entre Renata Vasques e Bruno Tavares · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração
Renata Vasques
Bruno, o discurso do mercado é que o dinheiro sumiu. Você diz que o dinheiro não sumiu, ele mudou de lado. O que isso quer dizer, na prática, para um fundador que está captando agora?
Bruno Tavares
Quer dizer que o capital continua existindo em volume parecido, mas ele parou de pagar por promessa e passou a pagar por evidência. Em 2021, uma apresentação com mercado endereçável gigante e crescimento de três dígitos resolvia. Hoje, a primeira pergunta é sobre retenção de receita líquida e a segunda é sobre margem bruta real, com custo de infraestrutura e de suporte dentro. Quem tem esses dois números bons capta rápido e em condições boas. Quem não tem acha que o mercado fechou.
Renata Vasques
Qual é a régua numérica que vocês usam hoje para uma série A?
Bruno Tavares
Simplificando: receita recorrente anual acima de doze a quinze milhões de reais, crescimento consistente de duas vezes ao ano, margem bruta acima de setenta por cento em software, retenção líquida acima de cento e dez por cento e queima que dê pelo menos dezoito meses de caixa depois da rodada. Não é uma tabela sagrada, é o centro da distribuição. Faltando um item, a conversa continua. Faltando três, o cheque não sai — e é melhor o fundador saber disso na primeira reunião do que na quinta.
Renata Vasques
Você disse que teses B2B ficaram com a maior parte do capital no último ano. Por quê?
Bruno Tavares
Por previsibilidade. Em B2B, você tem contrato, ciclo de renovação e um comprador que mede retorno. Isso permite modelar. Em consumo, o custo de aquisição depende de plataformas de mídia que reprecificam todo trimestre, e a lealdade é frágil. Não é que consumo seja ruim; é que ele exige uma marca forte, e marca leva anos e capital paciente. No ciclo atual, o capital é menos paciente. Então ele foi para onde o retorno é mais auditável.
Renata Vasques
E dentro de B2B, tem algum recorte que se destacou?
Bruno Tavares
Software que substitui trabalho manual em processos regulados: fiscal, contábil, jurídico, saúde suplementar, logística documental. São mercados em que o cliente consegue apontar exatamente quantas horas de gente foram economizadas. Quando o valor é contável, a venda é mais curta e o preço aguenta reajuste. Nós investimos em quatro empresas assim nos últimos dezoito meses, e as três que mais crescem têm a mesma característica: vendem para uma área que tem meta de produtividade explícita.
Renata Vasques
O que mudou no seu processo de diligência? O que você passou a exigir que não exigia antes?
Bruno Tavares
Passei a exigir os dados brutos, não o painel. Quero o extrato de faturamento por cliente, mês a mês, dos últimos vinte e quatro meses, em arquivo. A partir dali eu monto a coorte sozinho. Você não imagina quantas vezes o número do painel e o número do extrato não batem. Quase nunca é fraude; é definição frouxa. Alguém contou como recorrente uma receita de implantação, alguém anualizou um mês bom. Quando você recalcula, a curva é outra.
Renata Vasques
Isso não cria desconfiança na relação com o fundador logo de início?
Bruno Tavares
Cria o contrário, quando é bem explicado. Eu digo na primeira reunião: vou pedir os dados crus e vou refazer as suas contas, e se a sua conta estiver certa, a nossa conversa fica muito mais rápida. Fundador bom adora isso, porque cansou de competir com apresentação bonita. O que gera desconfiança é o investidor que some por três semanas e volta com uma proposta com desconto sem explicar de onde veio.
Renata Vasques
Você vê muitos planos financeiros. Quais são os erros que mais se repetem?
Bruno Tavares
O primeiro é tratar vendedor como variável linear: contrato dez vendedores, multiplico a receita por dez. Ignora rampa, ignora que gestão de time comercial grande exige uma camada de liderança que não existe na planilha, ignora que o funil de leads não cresce na mesma velocidade. O segundo é margem que melhora sozinha no ano três sem nenhuma iniciativa associada. O terceiro é churn constante: ninguém tem churn constante, ele piora quando você desce de segmento.
Renata Vasques
E do lado positivo, o que te faz confiar numa projeção?
Bruno Tavares
Quando o fundador me mostra a projeção do ano passado ao lado do realizado e explica cada desvio sem se justificar. Isso vale mais do que qualquer modelo elegante. Significa que a empresa tem memória e aprende. Eu tenho um caso de uma empresa da carteira que errou a receita em trinta por cento para baixo, mas tinha identificado a causa em abril e corrigido a operação em junho. Investi na rodada seguinte com convicção maior do que teria se tivesse acertado por sorte.
Renata Vasques
Preço ainda é o centro da negociação ou a estrutura virou mais importante?
Bruno Tavares
Estrutura virou mais importante e quase ninguém percebe a tempo. Preferência de liquidação, direitos de veto, condições de conversão, tamanho do pool de opções e ajuste antidiluição pesam mais no bolso do fundador do que dois ou três milhões de valuation. Já vi empresa vendida por bom preço em que o fundador levou quase nada porque aceitou uma preferência agressiva na rodada anterior. Eu digo sempre: negocie a cascata de saída com a mesma energia que você negocia o preço da manchete.
Renata Vasques
Que conselho você dá para o fundador que está começando a captar em três meses?
Bruno Tavares
Comece a conversa agora, sem pedir dinheiro. Mande atualização mensal curta para dez fundos, com número bom e número ruim. Em três meses, você não vai estar apresentando uma empresa: vai estar apresentando uma trajetória que o investidor acompanhou. Isso reduz o desconto de incerteza mais do que qualquer apresentação. E escolha o fundo pelo sócio que vai sentar no seu conselho, não pela marca do fundo. Você vai conviver com essa pessoa por sete a dez anos.
Renata Vasques
Bruno, vamos falar do lado que o fundador nunca vê: como é a reunião interna em que o fundo decide não investir?
Bruno Tavares
É mais curta do que as pessoas imaginam e quase sempre gira em torno de uma única frase: por que essa empresa vence se o concorrente com mais capital resolver atacar esse mercado? Se ninguém na mesa consegue responder isso com convicção em dois minutos, não vai adiante. Não é falta de respeito com o trabalho do fundador. É que o nosso erro mais caro não é perder um bom negócio; é entrar num negócio bom em um mercado sem defesa.
Renata Vasques
E o que constrói essa defesa em software brasileiro hoje?
Bruno Tavares
Três coisas, em ordem de força: integração profunda com o sistema que o cliente já usa, dado proprietário acumulado ao longo do tempo e distribuição em canal difícil de replicar, como contadores, corretores ou associações setoriais. Marca ajuda, mas em B2B ela chega depois. O que quase nunca é defesa é uma funcionalidade específica, porque funcionalidade se copia em um trimestre. Já vi excelente produto perder porque o concorrente tinha quatro mil contadores revendendo.
Renata Vasques
Depois de investir, o que muda na empresa? Muitos fundadores temem perder autonomia.
Bruno Tavares
O que muda é a cadência de informação, não o comando. Pedimos um pacote mensal com dez indicadores até o dia dez, uma reunião de conselho trimestral e orçamento aprovado uma vez por ano. Fora isso, quem opera é o fundador. Autonomia se perde quando a informação atrasa, porque investidor sem informação começa a perguntar de tudo. Fundador que reporta bem tem, na prática, muito mais liberdade do que o que reporta pouco.
Renata Vasques
E quando os números vão mal, como deve ser essa conversa?
Bruno Tavares
Antecipada e com hipótese. A pior mensagem que eu posso receber é 'o trimestre veio ruim' sem explicação. A melhor é 'o trimestre veio dezoito por cento abaixo, achamos que a causa é a rampa do time novo, e o teste que vamos rodar é esse'. Com a segunda, eu ajudo. Com a primeira, eu investigo, e investigação consome tempo do fundador. Já reforcei posição em empresa que errou meta e comunicou bem, e já reduzi apetite em empresa que bateu meta e escondeu problema.
Renata Vasques
Falando de liquidez: como estão as saídas no Brasil e o que isso significa para quem está construindo agora?
Bruno Tavares
A janela de abertura de capital segue estreita, então a rota realista é venda estratégica, e quem compra são grupos setoriais e companhias de tecnologia que querem entrar em um nicho regulado. Isso tem uma implicação prática para o fundador: construa a empresa para ser comprável. Contabilidade auditada, contratos padronizados, propriedade intelectual registrada no nome da empresa, sem dependência de um único cliente. Diligência de comprador estratégico é impiedosa nesses pontos.
Renata Vasques
Tem um caso da carteira que ilustre isso?
Bruno Tavares
Uma empresa nossa de gestão de documentos fiscais foi comprada no ano passado. O que acelerou a transação de nove para quatro meses foi banal: ela tinha contrato-padrão com noventa e três por cento da base, então o comprador não precisou revisar mil documentos diferentes. Isso vale dinheiro real. Padronizar contrato é a tarefa mais chata e mais rentável que um fundador pode fazer no ano três.
Renata Vasques
Fechando, Bruno, se eu tivesse que resumir a sua tese em uma frase, seria: o capital não ficou escasso, ele ficou exigente. E a exigência mudou de natureza — deixou de ser sobre tamanho de mercado e passou a ser sobre qualidade de evidência.
Bruno Tavares
É isso, e eu acrescentaria que essa mudança é saudável, ainda que dolorida. O ciclo anterior premiava narrativa e criou empresas que só existiam enquanto havia rodada seguinte. O ciclo atual premia unidade econômica que fecha. As empresas que se formarem agora vão ser mais chatas de apresentar e muito mais difíceis de matar. Como investidor de prazo longo, eu prefiro isso.
Renata Vasques
E para o fundador que está ouvindo: os pontos práticos da conversa são objetivos. Meça retenção líquida e margem bruta com custo cheio. Guarde os dados brutos de faturamento por cliente desde já. Padronize contrato. Negocie estrutura, não só preço. Construa relacionamento com fundos meses antes de precisar, mandando atualização com número bom e número ruim. E escolha o conselheiro, não a marca. Nenhuma dessas coisas depende de mercado aberto — todas dependem de disciplina interna.

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