
Liderança em tempos de mudança
Carolina Menezes · CEO, Grupo Vértice
Como conduzir uma companhia industrial durante uma reestruturação: escolhas de portfólio, conversas difíceis e o papel da comunicação interna.
20/08/2026 · 48 min
Episódio 20
Diego Almeida — Diretor de operações, Pauta Indústria
Sensores baratos, painéis simples e uma mudança de rotina que reduziu parada não programada em 27%.
30 de julho de 2026 · 37 min
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Ouvir narração com IA
A fábrica que virou software · 37 min
Resumo do episódio narrado por voz sintética a partir do roteiro editorial.
Diálogo integral entre Renata Vasques e Diego Almeida · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração
Renata Vasques
Diego, quando se fala em fábrica digital, a imagem que vem é robô e investimento milionário. A sua história é o contrário. Por onde vocês começaram?
Diego Almeida
Começamos com sensor de vibração de duzentos reais em oito motores críticos e uma planilha. Sério. A pergunta que a diretoria fazia era: por que paramos tanto? E ninguém sabia responder com dado, só com opinião. Antes de comprar sistema, a gente precisava de fato. Em seis semanas de coleta já dava para ver que dois equipamentos respondiam por quase metade das horas paradas, e nenhum dos dois era o que o time apontava como vilão.
Renata Vasques
Esse é um ponto importante. A percepção do time estava errada?
Diego Almeida
Estava enviesada, que é diferente. O time lembrava das paradas dramáticas, as que exigiam quatro horas de conserto e muita adrenalina. Mas o que matava a produção eram microparadas de sete, oito minutos, várias vezes ao dia, que ninguém registrava porque não davam trabalho. Somadas, eram trezentas horas por ano. É o clássico: o que dói pouco e sempre custa mais do que o que dói muito e raramente.
Renata Vasques
Vocês fizeram questão de um painel simples. Explica essa escolha.
Diego Almeida
A primeira versão do painel foi feita por um integrador e tinha vinte e dois indicadores. Bonito e inútil. Ninguém no chão de fábrica olhava. Refizemos com três informações e três cores: estamos no ritmo da meta, estamos atrás, ou a máquina está parada e por qual motivo. Só isso, em uma televisão de cinquenta polegadas por célula. O uso subiu de zero para constante em duas semanas. Painel que precisa de treinamento é painel mal desenhado.
Renata Vasques
E como vocês registram o motivo da parada sem burocratizar?
Diego Almeida
Com seis botões físicos ao lado da máquina, cada um com um motivo: falta de material, troca de ferramenta, ajuste de qualidade, manutenção, falta de operador e outros. O operador aperta e volta a trabalhar. Leva dois segundos. Quando escolhem 'outros' mais de dez por cento das vezes, a gente sabe que falta um botão e revisa a lista. Esse detalhe, que parece bobo, é o que garante dado confiável. Formulário em computador no meio do turno ninguém preenche.
Renata Vasques
A parada não programada caiu vinte e sete por cento. Quanto disso é preditivo de verdade e quanto é disciplina?
Diego Almeida
Eu diria que setenta por cento é disciplina e trinta é algoritmo, e o algoritmo só funciona porque a disciplina veio antes. O modelo que usamos é simples: assinatura de vibração e temperatura fora da faixa gera uma ordem de inspeção automática. Não é inteligência artificial sofisticada, é limite estatístico bem calibrado. O ganho veio de a ordem virar tarefa com responsável e prazo, em vez de virar alerta que pisca no monitor e ninguém trata.
Renata Vasques
Tem um caso concreto que ilustre isso?
Diego Almeida
Tem. Um redutor da linha três começou a subir temperatura três graus acima da média em janeiro. O sistema abriu inspeção, o mecânico encontrou desalinhamento de acoplamento e resolveu em quarenta minutos numa parada programada. Aquele mesmo redutor tinha travado no ano anterior e nos custado dezenove horas de linha parada e um pedido atrasado. A diferença entre quarenta minutos e dezenove horas é o retorno inteiro do projeto, em um único evento.
Renata Vasques
Qual foi a maior resistência interna?
Diego Almeida
O medo, legítimo, de que o dado virasse instrumento de punição. Se o painel mostra que a célula do João produziu menos, o João acha que vai ser cobrado. Nós fizemos um acordo público: nos primeiros seis meses, nenhum dado do sistema seria usado em avaliação individual. Só para achar problema de processo. Cumprimos. Depois disso, o próprio time começou a pedir o número, porque ele passou a servir para defender a célula quando a culpa era de falta de material.
Renata Vasques
Precisou contratar perfil novo?
Diego Almeida
Contratamos uma pessoa de dados, mas o mais importante foi formar internamente. Escolhemos quatro operadores com facilidade em tecnologia e demos seis horas semanais para eles cuidarem dos sensores e do painel, com adicional na remuneração. Eles conhecem a máquina, o que nenhum analista de fora conhece. Dois deles hoje são técnicos de automação. Digitalização em indústria dá certo quando ela cria carreira, não quando ela chega como projeto da matriz.
Renata Vasques
Qual é o próximo passo agora que o básico está de pé?
Diego Almeida
Conectar produção e planejamento. Hoje já sabemos a capacidade real hora a hora, mas a programação ainda é feita com a capacidade teórica, que é otimista em torno de doze por cento. Corrigir isso muda a promessa de prazo que o comercial faz ao cliente. É menos glamouroso do que falar em inteligência artificial, mas é onde está o dinheiro: prometer certo e entregar no dia, que é a coisa que o cliente industrial mais valoriza e que quase ninguém faz.
Renata Vasques
E o conselho para quem vai começar amanhã?
Diego Almeida
Escolha um problema que dói e resolva ele inteiro em noventa dias, com o orçamento de um jantar de diretoria. Mostre o resultado em número. Depois peça o segundo orçamento. Projeto grande de transformação digital morre no comitê; projeto pequeno que funciona vira cultura. E não compre sistema antes de saber qual pergunta você quer responder — essa é a conta mais cara que a indústria brasileira paga hoje.
Renata Vasques
Diego, todo projeto tem um capítulo ruim. Qual foi o de vocês?
Diego Almeida
Compramos um pacote de sistema de gestão de manutenção que custou quatro vezes o que custaram todos os sensores juntos e usamos vinte por cento dele. O erro foi comprar antes de saber qual processo a gente queria. Sistema não cria processo, ele congela o processo que você já tem, bom ou ruim. Hoje eu faço o contrário: rodo três meses com planilha e botão físico, escrevo o processo que funcionou e só então procuro um sistema que caiba nele.
Renata Vasques
Vocês conseguiram recuperar esse investimento?
Diego Almeida
Parcialmente. Renegociamos o contrato para um módulo só, o de ordens de serviço, que é onde estava o valor real, e devolvemos o resto. Foi desconfortável assumir internamente que erramos, mas foi importante fazer isso em voz alta. Se o diretor esconde o erro dele, ninguém no chão de fábrica vai relatar problema. A transparência sobre esse projeto foi, provavelmente, o que mais ajudou o próximo a dar certo.
Renata Vasques
Conectar máquina à rede levanta a questão de segurança. Como vocês tratam isso?
Diego Almeida
Com separação física e regra simples. A rede da produção é isolada da rede administrativa, e a comunicação sai em um sentido só: o dado vai da fábrica para o painel, e nada volta da internet para o controlador. Ninguém liga máquina remotamente, por decisão nossa. É menos moderno e é muito mais seguro. Também não guardamos dado de máquina em serviço que a gente não saiba onde está hospedado, porque parada de linha por indisponibilidade de fornecedor é risco de produção.
Renata Vasques
E quanto ao dado histórico: vocês guardam tudo?
Diego Almeida
Guardamos dois anos em detalhe por segundo e o resto agregado por minuto. Aprendi que dado sem contexto envelhece rápido: se ninguém anotou que naquele mês trocamos de fornecedor de matéria-prima, a série histórica engana. Então mantemos um diário de mudanças ao lado do dado. É um arquivo de texto simples, atualizado pelo coordenador. Vale mais do que qualquer ferramenta de análise, porque é o que permite interpretar o que o gráfico mostra.
Renata Vasques
Como você apresentaria esse projeto para uma diretoria cética, que já viu promessa de tecnologia não se cumprir?
Diego Almeida
Com um número de dor e um piloto barato. Eu cheguei dizendo: paramos trezentas horas por ano sem saber por quê, cada hora custa cerca de dois mil e duzentos reais em contribuição perdida, e eu quero seis mil reais e noventa dias para descobrir a causa das duas piores máquinas. Ninguém nega isso. Depois, com resultado medido, o segundo pedido foi de cem mil e passou em uma reunião. A sequência importa mais do que o argumento.
Renata Vasques
Para fechar: o que você diria para o operador que teme ser substituído por essa digitalização?
Diego Almeida
Diria a verdade: o que a tecnologia substituiu na nossa fábrica foi a prancheta e a papelada, não a pessoa. Nós não demitimos ninguém por causa do projeto, e quatro operadores subiram de função. O que muda é o tipo de atenção que se pede: menos anotar, mais interpretar. E quem conhece o barulho da máquina continua sendo o melhor sensor que a fábrica tem. Nenhum modelo estatístico substituiu isso ainda, e eu duvido que substitua logo.
Renata Vasques
Diego, para fechar: essa é uma história de indústria digital sem nenhuma palavra da moda. Sensor barato, botão físico, painel de três informações e diário de mudanças em arquivo de texto.
Diego Almeida
E é assim que funciona na maioria das fábricas brasileiras. O erro comum é começar pelo topo, com plataforma grande e comitê. A gente começou pela pergunta mais barata: por que paramos? A resposta estava em microparadas que ninguém registrava. Descobrir isso custou seis mil reais. Se eu tivesse pedido dois milhões para transformação digital, provavelmente ainda estaríamos discutindo escopo.
Renata Vasques
Os números do caso, para registro: parada não programada vinte e sete por cento menor, cerca de trezentas horas de máquina recuperadas por ano, um evento único de manutenção preditiva que economizou dezenove horas de linha, quatro operadores promovidos e nenhum desligamento em razão do projeto. O próximo passo, conectar capacidade real ao planejamento, é o que transforma eficiência interna em promessa de prazo confiável para o cliente — e é aí que o ganho vira receita.

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