Episódio 18

Conteúdo que vende sem parecer anúncio

Marina SallesDiretora de conteúdo, Editorial Nove

Uma operação de conteúdo próprio que virou canal de receita: pauta, cadência, distribuição e a métrica que substituiu o número de seguidores.

16 de julho de 2026 · 42 min

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Conteúdo que vende sem parecer anúncio · 42 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

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Destaques do episódio

  • Como montar pauta a partir de objeção comercial
  • Por que ela mede leitura recorrente, não alcance
  • O time mínimo para publicar toda semana

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Marina Salles · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

A origem da operação de conteúdo

Renata Vasques

Marina, a Editorial Nove começou como uma área de conteúdo institucional e virou canal de receita. Como foi essa virada?

Marina Salles

Começamos publicando artigos genéricos sobre o setor, do tipo que qualquer concorrente também publicava, e a métrica que olhávamos era alcance. Depois de um ano assim, percebemos que aquele conteúdo não influenciava decisão de compra nenhuma, só engordava relatório. A virada aconteceu quando paramos de perguntar o que era interessante escrever e passamos a perguntar quais eram as dez objeções mais repetidas pelo time comercial no fechamento de contrato. Reescrevemos toda a pauta editorial em cima dessas objeções, com dados, comparação honesta e casos reais. Em seis meses, o conteúdo passou a aparecer nas próprias conversas de venda, porque o vendedor mandava o artigo certo no momento certo da negociação, em vez de repetir o argumento de memória.

Renata Vasques

E isso mudou a relação entre conteúdo e vendas dentro da empresa?

Marina Salles

Completamente. Hoje o time comercial participa da pauta editorial mensal, e o conteúdo entrou como etapa formal do funil de vendas, não como material de apoio opcional.

Como montar pauta a partir de objeção comercial

Renata Vasques

Descreve o processo real de transformar uma objeção de venda em pauta editorial, passo a passo.

Marina Salles

Toda sexta-feira, um analista de conteúdo participa de uma reunião de quinze minutos com o time comercial, só para coletar objeções da semana, sem julgamento, sem defesa. Agrupamos essas objeções por tema num painel compartilhado. Quando um tema aparece em pelo menos cinco conversas diferentes na mesma semana, ele vira pauta prioritária. O artigo precisa responder à objeção com prova concreta, nunca com afirmação vaga. Se a objeção for sobre prazo de implementação, o artigo mostra o cronograma real de três clientes, com nome e autorização, não uma promessa genérica. Isso levou o tempo médio de produção de dez dias para quatro, porque a pauta já vem validada pelo mercado antes de qualquer redator escrever a primeira linha.

Renata Vasques

Isso parece exigir uma proximidade grande entre conteúdo e comercial que nem toda empresa tem.

Marina Salles

Exige, e essa proximidade não nasce sozinha. Ela é uma rotina construída, com reunião marcada e recorrente, não uma boa vontade esporádica entre áreas que raramente se falam.

Por que ela mede leitura recorrente, não alcance

Renata Vasques

Você abandonou alcance como métrica principal. O que substituiu esse número?

Marina Salles

Leitura recorrente, que é o percentual de leitores que voltam a consumir um segundo conteúdo nosso dentro de trinta dias. Alcance mede curiosidade passageira; leitura recorrente mede confiança acumulada, que é o que realmente antecede uma decisão de compra considerada. Hoje, vinte e três por cento dos nossos leitores voltam dentro de um mês, e esse grupo converte em proposta comercial numa taxa três vezes maior do que quem leu um artigo só uma vez. Quando um lead chega ao vendedor já tendo lido quatro ou cinco artigos nossos, o ciclo de venda encurta, porque boa parte da educação sobre o problema já aconteceu antes da primeira ligação.

Renata Vasques

E como você rastreia isso sem invadir a privacidade do leitor de forma exagerada?

Marina Salles

Usamos identificação por e-mail cadastrado voluntariamente, nunca rastreamento anônimo agressivo. Quem não se cadastra simplesmente não entra nessa métrica, e tudo bem, porque o valor real está em quem decide voltar por interesse próprio.

O time mínimo para publicar toda semana

Renata Vasques

Qual é o time mínimo que sustenta uma cadência semanal de publicação com esse padrão de qualidade?

Marina Salles

Quatro pessoas, sem terceirização de escrita para fora. Um editor que também escreve e revisa, um repórter que entrevista cliente e time técnico para trazer dado real, um produtor que cuida de distribuição em e-mail e redes, e uma pessoa de dados que mede leitura recorrente e cruza com pipeline comercial mensalmente. Testamos terceirizar escrita para agência no início, e o resultado foi conteúdo tecnicamente correto mas sem textura de caso real, porque o redator externo nunca sentava na reunião de objeção comercial. Trazer isso para dentro de casa custou mais caro por mês, mas o retorno em conversão compensou a diferença de custo em menos de um trimestre.

Renata Vasques

Qual foi o orçamento aproximado dessa operação de quatro pessoas comparado ao que vocês gastavam antes com agência?

Marina Salles

Ficou cerca de quinze por cento mais caro por mês, mas a receita atribuída ao conteúdo, medida por pipeline que passou por leitura recorrente, cresceu perto de sessenta por cento no mesmo período, o que torna a comparação simplesmente injusta com o modelo antigo.

Distribuição sem depender de rede social

Renata Vasques

Como vocês distribuem esse conteúdo sem depender inteiramente do alcance orgânico das redes sociais, que é imprevisível?

Marina Salles

A espinha dorsal é a lista de e-mail própria, que hoje tem mais de quarenta mil cadastros qualificados, segmentados por estágio de interesse. Redes sociais são canal de descoberta, não de retenção; usamos para atrair gente nova para dentro da lista, nunca como destino final da estratégia. Cada artigo novo vai para segmentos específicos da lista, não para a base inteira, o que mantém taxa de abertura acima de trinta e oito por cento, bem acima da média do setor. Também reaproveitamos conteúdo em formato de e-mail sequencial para quem entra pela primeira vez, criando uma trilha de leitura guiada em vez de deixar a pessoa se perder no blog inteiro.

Renata Vasques

Essa dependência de lista própria parece uma decisão estratégica, não só operacional.

Marina Salles

É estratégica mesmo. Rede social muda regra do dia para a noite; a lista própria é ativo que a empresa controla, e por isso ela é o centro da nossa operação de conteúdo, não um canal auxiliar qualquer.

Orçamento e alocação dentro da área de conteúdo

Renata Vasques

Marina, como fica dividido o orçamento anual dessa operação de conteúdo entre produção, distribuição e ferramenta?

Marina Salles

Cerca de sessenta por cento vai para o time interno, que já descrevi, salário das quatro pessoas mais um freelancer eventual para pauta muito técnica. Vinte e cinco por cento vai para ferramenta, incluindo plataforma de e-mail marketing, ferramenta de gestão de pauta e a ferramenta que cruza leitura recorrente com pipeline comercial, que foi desenvolvida sob medida porque nenhuma solução pronta do mercado fazia esse cruzamento específico direito. Os quinze por cento restantes vão para impulsionamento pontual de conteúdo em rede social, só para os artigos que já provaram tração orgânica boa, nunca para testar conteúdo novo do zero. Essa proporção mudou bastante desde o início, quando quase tudo ia para produção e nada para ferramenta de mensuração, o que nos deixava cegos sobre o que realmente convertia.

Renata Vasques

Vocês tiveram que brigar internamente para conseguir orçamento de ferramenta sob medida em vez de usar algo pronto e mais barato?

Marina Salles

Brigamos, sim, no primeiro ano. A diretoria via aquilo como gasto de tecnologia desnecessário para uma área de conteúdo. Só quando mostramos o cruzamento entre leitura recorrente e fechamento de contrato, feito manualmente numa planilha durante três meses como prova de conceito, é que aprovaram o desenvolvimento definitivo, porque o número já estava provado antes de pedirmos dinheiro para automatizar.

Um formato de conteúdo que não funcionou

Renata Vasques

Nem todo formato dá certo. Qual foi um experimento de conteúdo que vocês abandonaram?

Marina Salles

Investimos pesado em uma série de vídeos longos, de vinte a trinta minutos, com entrevista aprofundada de especialista do setor, achando que aquilo teria o mesmo efeito dos artigos escritos sobre objeção comercial. O custo de produção era alto, envolvendo estúdio e edição profissional, e o consumo completo do vídeo ficou abaixo de doze por cento em média. O problema era de formato e de momento: quem está no meio de um ciclo de compra quer resposta rápida e objetiva para uma dúvida específica, não uma conversa longa de trinta minutos sobre o setor de forma geral. Descontinuamos a série depois de oito episódios e seis meses de investimento.

Renata Vasques

Vocês reaproveitaram algo daquele material ou foi perda total?

Marina Salles

Reaproveitamos trechos curtos, de dois a três minutos, cortados exatamente no ponto em que o especialista respondia a uma objeção específica, e esses trechos curtos performaram muito melhor do que o vídeo completo original. A lição ficou clara: o problema não era o conteúdo do especialista, que era bom, era o formato longo demais para o momento de decisão em que o leitor realmente está buscando resposta.

Como o time lida com pauta que o comercial pede e a área acha fraca

Renata Vasques

O que acontece quando o time comercial insiste numa pauta que a equipe de conteúdo avalia como fraca ou repetitiva?

Marina Salles

Aplicamos o mesmo critério de sempre, sem exceção para quem está pedindo: a pauta só entra na prioridade se aparecer em pelo menos cinco conversas comerciais diferentes na mesma semana. Se um único vendedor insiste numa pauta que só ele enfrenta, tratamos como caso pontual, resolvido com material de apoio simples e não com artigo publicado, que exige um padrão de qualidade e de prova maior. Isso evita que a pauta editorial vire uma fila de pedidos individuais desconectados de um padrão real de mercado, o que aconteceria rápido se cedêssemos a cada pedido isolado só porque veio de alguém importante internamente.

Renata Vasques

Isso já gerou algum atrito sério com a liderança comercial?

Marina Salles

Gerou, principalmente no início, quando o critério ainda não era conhecido por todo mundo. Resolvemos isso deixando o painel de objeções agrupadas visível para toda a liderança comercial em tempo real, para que qualquer gerente veja com os próprios olhos quantas vezes aquele tema apareceu antes de cobrar prioridade, o que tirou boa parte da discussão do campo da opinião pessoal.

Conselho para quem está começando uma operação de conteúdo hoje

Renata Vasques

Para uma empresa que está montando essa operação do zero hoje, com orçamento limitado, qual seria o primeiro passo prático que você recomendaria?

Marina Salles

Antes de contratar qualquer redator ou agência, sente numa reunião de vendas por duas semanas e anote toda objeção repetida. Não escreva nada ainda. Esse levantamento, feito sem custo nenhum, já revela onde está o conteúdo que efetivamente vai ajudar a fechar negócio, em vez de conteúdo genérico que só existe porque parece bom ter um blog ativo. Segundo passo é medir leitura recorrente desde o primeiro artigo, mesmo que a base ainda seja pequena, porque criar esse hábito de medição cedo evita anos de operação guiada só por intuição sobre o que parece interessante escrever.

Renata Vasques

E o erro mais comum que você vê empresas pequenas cometendo logo no início dessa jornada?

Marina Salles

Terceirizar a escrita completa para uma agência antes mesmo de entender qual objeção o conteúdo deveria resolver. A agência entrega texto bem escrito e tecnicamente correto, mas sem a textura de caso real que só quem está dentro da empresa, ouvindo o cliente de verdade, consegue captar e transformar em prova concreta dentro do artigo.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Para fechar, Marina, recapitulando os números do episódio: qual é a síntese que resume a operação da Editorial Nove?

Marina Salles

Pauta construída em cima de objeções que aparecem em pelo menos cinco conversas comerciais na mesma semana, reduzindo o tempo de produção de dez para quatro dias. Leitura recorrente de vinte e três por cento, com conversão em proposta três vezes maior do que leitura única. Time interno de quatro pessoas custando quinze por cento a mais que a agência terceirizada anterior, mas gerando cerca de sessenta por cento mais pipeline atribuído. E uma lista própria de mais de quarenta mil cadastros com taxa de abertura acima de trinta e oito por cento, como ativo central da distribuição. A lição é simples de enunciar e difícil de executar: conteúdo que vende é conteúdo que nasce da objeção real do cliente, não da criatividade isolada da área de marketing.

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