Episódio 17

Preço é a mensagem mais forte

Otávio RezendeEspecialista em pricing, Faixa Consultoria

Descontos, ancoragem e o que a tabela de preço comunica ao mercado antes de qualquer campanha publicitária.

09 de julho de 2026 · 40 min

Player

Preço é a mensagem mais forte · 40 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

Compartilhar

Destaques do episódio

  • Como sair da promoção permanente sem perder volume
  • Escada de produto e margem por degrau
  • O teste de preço que qualquer empresa pode rodar

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Otávio Rezende · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

Preço como comunicação, não como planilha

Renata Vasques

Otávio, você defende que preço comunica mais do que qualquer campanha publicitária. O que quer dizer com isso na prática?

Otávio Rezende

Quero dizer que o cliente lê a tabela de preço antes de ler qualquer anúncio, e essa leitura é mais honesta aos olhos dele, porque preço é o único lugar onde a empresa coloca dinheiro real em jogo. Se uma marca se posiciona como premium na campanha mas está sempre em promoção de quarenta por cento, o cliente acredita no preço, não no discurso. Trabalhei com uma varejista de móveis que investia pesado em campanha de sofisticação, mas rodava liquidação em duzentos e oito dias por ano, quase sete meses. O mercado simplesmente ignorava a campanha e esperava a próxima promoção. A percepção real da marca era de loja de saldão, não de marca de design, independente do que a publicidade dizia.

Renata Vasques

Então antes de qualquer ajuste de comunicação, você olha o calendário promocional?

Otávio Rezende

Sempre. O calendário promocional é o verdadeiro posicionamento da marca, escrito em números, e costuma contradizer o que a campanha publicitária tenta comunicar ao mesmo tempo.

Como sair da promoção permanente sem perder volume

Renata Vasques

Esse caso da loja de móveis, como vocês tiraram a empresa da promoção permanente sem quebrar o volume de vendas?

Otávio Rezende

Fizemos em três etapas, ao longo de dez meses. Primeiro, reduzimos o número de dias de liquidação de duzentos e oito para cento e vinte, concentrando os descontos em duas janelas fixas no ano, para não perder o cliente caçador de promoção de vez, só disciplinar quando ela acontece. Segundo, criamos uma linha de produtos exclusiva que nunca entra em promoção, com margem trinta e cinco por cento maior, para dar ao vendedor um argumento de venda que não fosse desconto. Terceiro, treinamos o time de loja para vender a linha permanente antes de oferecer a linha promocional. No fim do período, o volume total caiu apenas seis por cento, mas o ticket médio subiu dezenove por cento e a margem bruta melhorou em oito pontos percentuais.

Renata Vasques

Seis por cento de queda em volume parece um preço baixo para esse ganho de margem.

Otávio Rezende

É um preço baixo, e é exatamente esse tipo de troca que a maioria dos varejistas tem medo de fazer, porque olha só o volume no curto prazo e ignora a margem que está sendo destruída todo mês.

Escada de produto e margem por degrau

Renata Vasques

Você fala muito em escada de produto. Como isso se relaciona com a mensagem que o preço transmite?

Otávio Rezende

A escada de produto é a sequência de opções que você oferece, do mais barato ao mais caro, e cada degrau existe para fazer o degrau vizinho parecer mais razoável. Isso é ancoragem clássica, mas a maioria das empresas monta a escada sem intenção, só empilhando produtos que já tinha. Numa consultoria de tecnologia que atendemos, existia um plano de entrada muito barato e um plano avançado muito caro, sem nada no meio. Criamos um degrau intermediário, posicionado a sessenta por cento do preço do plano avançado, entregando setenta por cento do valor percebido. Isso pareceu, aos olhos do cliente, uma pechincha em relação ao plano avançado. Sessenta e um por cento das nova vendas passaram a escolher esse degrau do meio, que tinha margem superior ao plano de entrada.

Renata Vasques

Ou seja, o degrau do meio nem precisava ser o mais vendido para justificar sua existência.

Otávio Rezende

Exatamente, embora nesse caso ele tenha virado o mais vendido. Mesmo quando o degrau do meio vende pouco sozinho, ele cumpre a função de fazer o degrau mais caro parecer mais aceitável por comparação, e isso já justifica sua existência na tabela.

O teste de preço que qualquer empresa pode rodar

Renata Vasques

Você tem um teste de preço simples que recomenda para empresas menores, sem orçamento de consultoria grande?

Otávio Rezende

Sim, chamo de teste de van westendorp simplificado. Você pergunta a uma amostra de pelo menos cinquenta clientes reais quatro perguntas: a partir de qual preço o produto parece caro demais, a partir de qual preço parece barato a ponto de duvidar da qualidade, qual preço parece caro mas ainda aceitável, e qual preço parece uma pechincha. Cruzando essas quatro respostas, você acha uma faixa de preço aceitável sem gastar em pesquisa cara. Numa fabricante de cosméticos pequena que rodou esse teste sozinha, usando só um formulário e a base de clientes existente, descobriram que o preço praticado estava vinte e dois por cento abaixo do teto que o próprio mercado aceitaria pagar.

Renata Vasques

Vinte e dois por cento é dinheiro deixado na mesa há quanto tempo, nesse caso?

Otávio Rezende

Anos, provavelmente, porque a empresa nunca tinha testado isso formalmente, só seguia o preço da concorrência mais próxima por hábito, sem questionar se aquele era realmente o teto do mercado para o produto dela.

Quando baixar preço é a decisão certa

Renata Vasques

Você sempre defende preço mais alto. Existe situação em que baixar preço é de fato a decisão certa?

Otávio Rezende

Existe, e é importante não vender pricing como sinônimo de aumentar preço sempre. Quando o produto tem custo marginal baixo e a demanda é altamente elástica, baixar preço pode aumentar volume o suficiente para crescer margem total, mesmo com margem unitária menor. Isso é comum em software com custo de servir cliente adicional próximo de zero. Testamos isso numa ferramenta de gestão para pequenas empresas: baixamos o preço de entrada em trinta por cento e o volume de novas assinaturas cresceu setenta e oito por cento em quatro meses, mais que compensando a margem unitária menor. A regra não é preço alto sempre, é conhecer a elasticidade real da sua categoria antes de decidir qualquer direção.

Renata Vasques

E como alguém descobre essa elasticidade sem arriscar a receita inteira num teste malfeito?

Otávio Rezende

Testando em fatia pequena e controlada da base primeiro, nunca na base inteira de uma vez, e sempre com prazo definido para reverter caso o resultado não apareça dentro do esperado.

Como a equipe de pricing e comunicação trabalha junto

Renata Vasques

Otávio, na prática, como fica a estrutura de time quando pricing deixa de ser decisão isolada de finanças e passa a ser também decisão de comunicação?

Otávio Rezende

Criamos um comitê mensal fixo com quatro pessoas: alguém de finanças, que traz custo e margem; alguém de marketing, que traz posicionamento e percepção; alguém de vendas, que traz reação real do cliente na ponta; e eu, coordenando a leitura conjunta. Antes desse comitê, cada área decidia preço e comunicação separadamente, e era comum uma campanha de posicionamento premium ser lançada na mesma semana em que vendas aprovava um desconto agressivo para bater meta trimestral, destruindo a mensagem da campanha em poucos dias. Hoje nenhuma decisão de desconto acima de dez por cento sai sem passar por esse comitê, e isso já evitou pelo menos três conflitos desse tipo só neste ano.

Renata Vasques

Esse processo não deixa a empresa mais lenta para reagir a uma oportunidade comercial pontual?

Otávio Rezende

Deixa um pouco mais lenta, e isso é proposital. Preferimos perder uma venda pontual a treinar o mercado inteiro a esperar desconto toda vez que precisa comprar. A velocidade que a empresa ganha depois, com margem mais previsível e cliente que não questiona mais o preço cheio, compensa em muito a lentidão inicial de aprovação.

Um reposicionamento de preço que não funcionou

Renata Vasques

Você já teve algum caso de ajuste de preço que simplesmente não deu certo, mesmo seguindo a metodologia que você descreve?

Otávio Rezende

Sim, numa rede de restaurantes que atendemos, tentamos criar um degrau intermediário no cardápio, um prato de porção maior a preço proporcionalmente menor, para ancorar os pratos individuais como mais razoáveis por comparação. A lógica era a mesma que funcionou na consultoria de tecnologia. Só que no restaurante o cliente não compara pratos entre si da mesma forma que compara planos de assinatura: a decisão é emocional e imediata, ligada à fome e à companhia na mesa, não uma análise racional de custo-benefício. O prato intermediário vendeu quase nada, cerca de três por cento do total, e tivemos que tirá-lo do cardápio depois de dois meses.

Renata Vasques

O que esse fracasso ensinou sobre os limites da técnica de ancoragem de preço?

Otávio Rezende

Ensinou que ancoragem de preço funciona melhor quando a decisão de compra é racional e comparativa, como em serviço recorrente ou produto durável, e funciona muito pior em contexto de consumo imediato e emocional. Hoje, antes de aplicar qualquer técnica de precificação, primeiro classificamos se a decisão do cliente naquela categoria é predominantemente racional ou emocional, e isso muda completamente qual ferramenta de preço vale a pena testar primeiro.

O papel da mídia paga quando o preço já está certo

Renata Vasques

Uma vez que a tabela de preço está calibrada e comunicando o que deveria, qual passa a ser o papel da mídia paga nessa engrenagem?

Otávio Rezende

A mídia paga passa a reforçar o motivo pelo qual aquele preço faz sentido, em vez de tentar justificar preço nenhum, o que é uma tarefa muito mais fácil para qualquer criativo publicitário. Na loja de móveis que citei, depois de reduzir os dias de promoção, redirecionamos o investimento em mídia para mostrar o processo de fabricação da linha permanente, com detalhe de material e acabamento, sem menção a preço nenhuma peça. Isso funcionou porque a tabela de preço já não contradizia a mensagem. Quando comunicação e preço remam na mesma direção, o custo por conversão do anúncio cai, porque o cliente que chega já está mentalmente preparado para pagar aquele valor.

Renata Vasques

Isso significa investir menos em mídia paga no total, ou só mudar o que ela comunica?

Otávio Rezende

Na maioria dos casos que acompanhamos, o investimento total não muda muito, mas a eficiência melhora, porque menos verba é gasta tentando corrigir, na comunicação, uma contradição que na verdade está na tabela de preço, um problema que publicidade nenhuma resolve de forma duradoura.

Conselho para quem está revendo preço agora

Renata Vasques

Para fechar essa parte, que conselho prático você daria para uma empresa que está revisando a tabela de preço pela primeira vez com esse olhar mais estratégico?

Otávio Rezende

Primeiro, mapeie o calendário promocional dos últimos doze meses antes de mexer em qualquer preço, porque ele revela o posicionamento real, não o desejado. Segundo, rode o teste de van westendorp simplificado com a base atual de clientes, é barato e rápido. Terceiro, olhe a escada de produto e veja se existe um degrau de comparação faltando entre o mais barato e o mais caro. E quarto, antes de aplicar qualquer técnica de ancoragem, classifique se a decisão de compra naquela categoria é racional ou emocional, porque isso muda qual ferramenta vale a pena tentar primeiro, como aprendemos da forma mais difícil com o caso do restaurante.

Renata Vasques

E o erro mais fácil de evitar logo de cara, sem gastar nada em consultoria?

Otávio Rezende

Contar quantos dias por ano a empresa está oficialmente em promoção. É um número que qualquer um calcula em uma tarde olhando o histórico de vendas, e sozinho já revela se a marca está, na prática, se posicionando como premium ou como saldão, independente do que qualquer campanha publicitária tenta dizer ao mesmo tempo.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Para fechar, Otávio, recapitulando os números centrais que você trouxe hoje: qual é a síntese do episódio?

Otávio Rezende

A loja de móveis reduziu dias de promoção de duzentos e oito para cento e vinte por ano, perdeu apenas seis por cento de volume e ganhou dezenove por cento de ticket médio, com oito pontos percentuais de margem a mais. A consultoria de tecnologia criou um degrau intermediário de preço que capturou sessenta e um por cento das vendas novas, com margem superior ao plano de entrada. O teste de van westendorp simplificado revelou vinte e dois por cento de preço deixado na mesa numa fabricante pequena. E o software de gestão mostrou que baixar preço em trinta por cento pode ser a decisão certa quando a elasticidade é alta, gerando setenta e oito por cento mais assinaturas. A lição unificadora: preço não é resultado de uma planilha de custo, é a frase mais clara que a empresa diz ao mercado sobre quem ela pensa que é.

Outros episódios

Ver todos