Episódio 16

CRM: o canal mais barato que todos ignoram

Juliana FontesDiretora de crescimento, Base Viva

Base própria, segmentação simples e automações que devolveram um terço da receita sem aumentar um real de mídia paga.

02 de julho de 2026 · 39 min

Player

CRM: o canal mais barato que todos ignoram · 39 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

Compartilhar

Destaques do episódio

  • As quatro réguas que resolvem 80% do resultado
  • Frequência de envio e saúde da base
  • O que medir além de taxa de abertura

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Juliana Fontes · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

O canal esquecido

Renata Vasques

Juliana, você diz que CRM é o canal mais barato que a maioria das empresas ignora. Por que ele é tão negligenciado, mesmo sendo barato?

Juliana Fontes

Porque não tem glamour de leilão de mídia, não gera relatório bonito de alcance, e o resultado aparece devagar, em semanas, não em horas. Quando cheguei na Base Viva, a empresa gastava noventa e dois por cento do orçamento de marketing em aquisição paga e só oito por cento em relacionamento com quem já era cliente. A base própria tinha mais de trezentos mil contatos com histórico de compra, e praticamente ninguém recebia comunicação estruturada além de newsletter genérica mensal. Isso é dinheiro parado: a pessoa já confiou o suficiente para comprar uma vez, e a empresa não fazia nada inteligente com esse relacionamento construído.

Renata Vasques

E qual foi o primeiro movimento para destravar isso?

Juliana Fontes

Segmentar a base por comportamento real de compra, não por dado demográfico, e criar as primeiras réguas automáticas de comunicação com base nesse comportamento, começando pelo mais óbvio: quem comprou uma vez e nunca voltou.

As quatro réguas que resolvem oitenta por cento do resultado

Renata Vasques

Você fala em quatro réguas específicas que resolvem a maior parte do resultado. Quais são elas?

Juliana Fontes

Primeira, boas-vindas e ativação, para o cliente novo nos primeiros trinta dias, ensinando o uso do produto e antecipando dúvida comum. Segunda, recompra por ciclo, disparada perto da data em que aquele cliente específico historicamente costuma comprar de novo, calculada individualmente, não com prazo fixo igual para todos. Terceira, recuperação de inatividade, para quem passou de noventa dias sem compra, com oferta progressivamente mais forte a cada tentativa. Quarta, pós-venda de satisfação, que identifica insatisfação cedo e evita que ela vire cancelamento silencioso. Juntas, essas quatro réguas respondem por perto de oitenta por cento de toda a receita que atribuímos hoje ao CRM, e nenhuma delas exige tecnologia sofisticada, só disciplina de segmentação e regra clara de disparo.

Renata Vasques

Qual dessas quatro teve o impacto individual mais surpreendente para vocês?

Juliana Fontes

A de recompra por ciclo individualizado, de longe. Quando trocamos data fixa igual para todo mundo por data calculada pelo histórico de cada cliente, a taxa de conversão daquele disparo específico dobrou, porque a mensagem chegava no momento em que a pessoa já estava, de fato, considerando comprar de novo.

Frequência de envio e saúde da base

Renata Vasques

Como vocês decidem a frequência de envio sem queimar a base com excesso de comunicação?

Juliana Fontes

Criamos um limite de frequência por cliente, não por campanha: no máximo três comunicações comerciais por semana, independente de quantas réguas diferentes aquela pessoa se qualifique para receber simultaneamente. Se duas réguas competem pelo mesmo contato na mesma semana, um algoritmo de prioridade decide qual mensagem é mais relevante naquele momento e adia a outra. Antes dessa regra, era comum um cliente receber quatro ou cinco e-mails na mesma semana, de times diferentes que não se falavam entre si. Isso derrubava a taxa de abertura e aumentava descadastro. Depois da regra de prioridade, a taxa de descadastro mensal caiu de dois vírgula um por cento para zero vírgula sete por cento, e isso sozinho já preservou uma base que hoje vale muito em receita recorrente.

Renata Vasques

Esse algoritmo de prioridade é complexo de manter tecnicamente?

Juliana Fontes

Não é complexo, é basicamente uma tabela de regras revisada mensalmente pelo time, priorizando sempre mensagem transacional sobre promocional, e dentro das promocionais, a que tem maior probabilidade histórica de conversão para aquele segmento específico.

O que medir além de taxa de abertura

Renata Vasques

Você defende medir CRM além da taxa de abertura, que é a métrica mais comum no mercado. O que entra nesse painel mais completo?

Juliana Fontes

Taxa de abertura mede curiosidade com o assunto do e-mail, não valor de negócio. O que realmente importa é receita incremental atribuída, medida com grupo de controle: separamos uma fatia pequena da base, cerca de cinco por cento, que não recebe nenhuma régua automática, e comparamos a receita desse grupo com o restante da base ao longo do trimestre. A diferença é o que o CRM efetivamente gerou, e não o que teria acontecido de qualquer forma. Hoje, essa comparação mostra que o CRM é responsável por trinta e quatro por cento da receita total da empresa, sem consumir orçamento de mídia paga adicional, porque toda comunicação vai para base que a empresa já possui.

Renata Vasques

Trinta e quatro por cento é uma fatia grande para um canal que você descreve como esquecido pelo mercado.

Juliana Fontes

É esse justamente o ponto do episódio. A maioria das empresas subestima o CRM porque nunca mediu com grupo de controle, então nunca soube quanto realmente estava deixando de capturar da própria base de clientes já conquistada.

O time e a operação por trás do resultado

Renata Vasques

Que tipo de estrutura de time sustenta essa operação de CRM hoje na Base Viva?

Juliana Fontes

Um time pequeno, cinco pessoas, que cuida de todas as réguas, segmentação e teste. É desproporcionalmente pequeno perto do time de mídia paga, que tem dezoito pessoas, mas gera receita comparável em proporção ao orçamento investido. Rodamos teste controlado toda semana em pelo menos uma régua, mudando assunto, horário de envio ou oferta, e documentamos o resultado num repositório único que qualquer pessoa nova do time consegue consultar antes de propor algo já testado antes. Essa disciplina de teste contínuo é o que mantém a taxa de conversão subindo mesmo com a base amadurecendo, porque o comportamento do cliente muda e a régua que funcionava há um ano pode perder força sem aviso.

Renata Vasques

Esse desequilíbrio de tamanho entre os times, cinco contra dezoito, incomoda a diretoria?

Juliana Fontes

Incomodava antes de termos o número de receita incremental com grupo de controle. Depois que esse número ficou claro, a conversa virou sobre contratar mais gente para CRM, não menos, porque o retorno por pessoa nesse time é visivelmente maior do que em qualquer outro canal que medimos hoje.

Como o time está organizado hoje

Renata Vasques

Juliana, para quem quer copiar esse modelo, como a Base Viva organiza internamente a squad de CRM no dia a dia, além do número de cinco pessoas?

Juliana Fontes

São papéis bem definidos, não generalistas. Uma pessoa cuida só de segmentação e qualidade de dado, garantindo que campo de comportamento de compra esteja correto antes de qualquer régua disparar em cima dele. Duas pessoas cuidam de conteúdo e oferta, escrevendo e ajustando cada mensagem por segmento. Uma pessoa cuida de automação técnica, plataforma e integração com o sistema de vendas. E uma pessoa, que reporta direto para mim, cuida só de mensuração, incluindo o grupo de controle e o repositório de testes. Separar mensuração de quem escreve a régua evita que a mesma pessoa avalie o próprio trabalho, o que sempre tende a gerar viés otimista no resultado reportado para a diretoria.

Renata Vasques

E como a orçamento anual dessa área é decidido junto com a diretoria?

Juliana Fontes

Apresentamos duas vezes por ano um orçamento vinculado a meta de receita incremental do grupo de controle, não a número absoluto de disparos ou tamanho de base. Se a meta de receita incremental for atingida com folga, negociamos mais uma vaga na squad para o próximo semestre. Isso alinha crescimento de time com resultado comprovado, em vez de crescimento de time só porque a empresa está indo bem de forma geral.

Um experimento de CRM que não funcionou

Renata Vasques

Nem tudo dá certo. Qual foi um experimento de CRM que a equipe tentou e teve que abandonar?

Juliana Fontes

Tentamos personalização extrema, com mensagem gerada de forma quase individual, citando o último produto comprado, a cidade do cliente e até o clima local no dia do envio. A hipótese era que quanto mais específico, maior a conversão. O resultado, medido contra grupo de controle com mensagem apenas moderadamente segmentada, foi praticamente igual, uma diferença de meio ponto percentual, dentro da margem de erro do teste. O custo de manter aquele grau de personalização, em tempo de equipe e complexidade técnica, era desproporcional ao ganho inexistente. Descontinuamos depois de dez semanas de teste.

Renata Vasques

O que vocês aprenderam com esse fracasso específico?

Juliana Fontes

Que existe um teto de retorno para granularidade de personalização, e passado esse teto o cliente já não percebe diferença suficiente para mudar comportamento de compra. Hoje aplicamos esse aprendizado testando sempre a versão mais simples de qualquer ideia nova antes de investir na versão mais sofisticada dela, porque na maioria das vezes a versão simples já captura quase todo o ganho possível.

Ferramentas e higiene de dado

Renata Vasques

Que tipo de ferramenta sustenta essa operação, e como vocês cuidam da qualidade do dado que alimenta as réguas?

Juliana Fontes

Usamos uma plataforma de automação de marketing de mercado, integrada diretamente ao sistema de vendas e ao sistema de pagamento, para que o histórico de compra chegue sem atraso e sem intervenção manual. A parte que realmente exige disciplina é higiene de dado: revisamos mensalmente contatos duplicados, e-mails inválidos e clientes que pediram para não receber comunicação, removendo tudo isso antes de qualquer disparo novo. Uma base suja infla número de envio mas derruba taxa de entrega real, e plataforma de e-mail penaliza domínio inteiro quando a taxa de rejeição fica alta. Já vimos concorrente perder capacidade de entrega por meses inteiros por negligenciar essa limpeza básica.

Renata Vasques

Isso é trabalho manual constante ou dá para automatizar boa parte?

Juliana Fontes

Automatizamos a detecção, com regra que sinaliza contato suspeito automaticamente toda semana, mas a decisão final de remover ou não passa por revisão humana rápida, porque nem todo contato inativo deveria ser tratado da mesma forma que um e-mail claramente inválido.

O que a diretoria pergunta hoje

Renata Vasques

Depois de provar o valor do CRM com o grupo de controle, o que a diretoria passou a perguntar nas reuniões trimestrais?

Juliana Fontes

A pergunta mudou de 'CRM está funcionando' para 'qual segmento da base ainda está subutilizado'. Isso é um avanço, porque tira a discussão do campo defensivo e coloca no campo de oportunidade. Hoje mapeamos a base em cinco níveis de engajamento, do cliente mais fiel ao cliente que só comprou uma vez há muito tempo, e a diretoria cobra plano específico para cada nível, não uma régua genérica única para todo mundo. O nível de clientes antigos inativos, por exemplo, ainda representa cento e dez mil contatos que praticamente não recebem nada além da recuperação padrão, e é onde estamos priorizando teste novo neste semestre.

Renata Vasques

Se você desse um conselho para uma empresa que está começando essa disciplina de CRM do zero hoje, qual seria?

Juliana Fontes

Comece pelo grupo de controle antes de qualquer régua sofisticada. Sem ele, a empresa nunca vai saber se o investimento em CRM está gerando receita nova ou só substituindo receita que aconteceria de qualquer forma, e é exatamente essa ignorância que mantém o canal subfinanciado por anos em tantas empresas parecidas com a que encontrei quando cheguei na Base Viva.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Para fechar, Juliana, recapitulando os números centrais do episódio: qual é a síntese que resume o trabalho da Base Viva?

Juliana Fontes

A empresa começou gastando noventa e dois por cento do orçamento em aquisição paga e só oito por cento em relacionamento com quem já comprava. As quatro réguas de boas-vindas, recompra por ciclo, recuperação de inatividade e pós-venda passaram a responder por perto de oitenta por cento da receita atribuída ao CRM. A regra de frequência máxima por cliente derrubou o descadastro mensal de dois vírgula um para zero vírgula sete por cento. E a medição com grupo de controle de cinco por cento da base revelou que o CRM gera trinta e quatro por cento da receita total, com um time de apenas cinco pessoas. A lição central do episódio: a base de clientes que já comprou de você é o ativo de marketing mais barato que existe, e a maioria das empresas trata isso como recurso secundário simplesmente porque nunca mediu o retorno real dele com rigor.

Outros episódios

Ver todos