Renata Vasques
Vocês já tentaram criar uma linha de produtos mais acessível, para capturar cliente que não pode pagar seis mil reais numa peça? Como foi essa experiência?
Beatriz Camargo
Tentamos, há seis anos, uma linha de acessórios pequenos, carteiras e chaveiros, com preço entre quatrocentos e oitocentos reais, pensando em atrair um público mais jovem que cresceria depois para as peças principais. O problema apareceu rápido: para viabilizar aquele preço, precisávamos reduzir o tempo de produção de cada peça pequena para menos de três horas, o que exigiu contratar mão de obra fora do padrão de formação longa dos nossos artesãos principais. A qualidade caiu, e pior, alguns clientes da linha principal passaram a associar a marca a um produto mais barato, o que gerou reclamação direta de dois clientes históricos.
Renata Vasques
E o que vocês fizeram diante desse efeito colateral na percepção da marca?
Beatriz Camargo
Descontinuamos a linha em dezoito meses, mesmo tendo vendido um volume razoável dela, porque o dano à percepção da linha principal era maior do que o ganho de receita da linha acessível. Aprendi, com um custo de aproximadamente trezentos e cinquenta mil reais entre investimento e reputação, que marca de luxo genuíno não sustenta duas propostas de valor diferentes sob o mesmo nome. Se eu quisesse atender esse outro público, precisaria criar uma marca completamente separada, sem o nome Sertã, e decidi que não valia o esforço de gestão de manter duas identidades simultâneas.