Episódio 6

Luxo brasileiro e a paciência do artesanal

Beatriz CamargoFundadora, Ateliê Sertã

Produção limitada, lista de espera e a decisão de não escalar: economia de um negócio de luxo feito à mão no Brasil.

23 de abril de 2026 · 40 min

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Luxo brasileiro e a paciência do artesanal · 40 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

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Destaques do episódio

  • Como precificar tempo de artesão
  • Lista de espera como ativo
  • Exportação sem perder identidade

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Beatriz Camargo · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

A decisão de não escalar

Renata Vasques

Beatriz, o Ateliê Sertã recebe pedido de investidor querendo escalar produção há anos, e você recusa. Por quê?

Beatriz Camargo

Porque escalar destruiria exatamente o que vendemos, que não é o produto final, é o tempo do artesão nele. Cada peça de couro que fazemos leva, em média, vinte e duas horas de trabalho manual, entre corte, costura e acabamento, feito por uma equipe de onze artesãos que trabalham comigo há mais de dez anos, em média. Se eu triplicasse a produção, precisaria triplicar artesãos com esse nível de formação em um prazo curto, e isso simplesmente não existe no mercado; formar um artesão nesse padrão leva de três a cinco anos de aprendizado supervisionado.

Renata Vasques

Já recebeu proposta de investimento significativa para forçar essa escala mesmo assim?

Beatriz Camargo

Recebi uma proposta de oito milhões de reais há três anos, de um fundo que queria abrir vinte lojas em cinco anos. Recusei porque o plano deles assumia produção industrializada com terceirização de parte da manufatura, o que é exatamente o oposto do que sustenta nosso preço. Nosso cliente paga entre seis mil e vinte e dois mil reais por peça sabendo que é feita por uma pessoa específica, com nome, e não por uma linha de produção. Quebrar isso quebraria a proposta de valor inteira, não só a operação.

Precificar o tempo do artesão

Renata Vasques

Como você chegou na fórmula de preço que sustenta um negócio de luxo artesanal sem depender de volume?

Beatriz Camargo

A base é custo de hora do artesão multiplicado pelas horas da peça, mais material, com uma margem que reflete escassez, não só custo. Um artesão sênior aqui custa, com encargos, cerca de sessenta e cinco reais a hora. Uma peça de vinte e duas horas de trabalho tem, então, cerca de mil quatrocentos e trinta reais só de mão de obra direta, mais material de couro curtido de forma vegetal que custa entre oitocentos e dois mil reais dependendo da peça. Isso já dá um custo direto de dois mil e duzentos a três mil e quatrocentos reais.

Renata Vasques

E daí até os seis mil ou vinte e dois mil reais de preço final, o que explica a distância?

Beatriz Camargo

Escassez controlada, que é um custo de oportunidade real, não artificial. Produzimos apenas cento e oitenta peças por ano, com lista de espera de catorze meses em média. Esse tempo de espera é, ele mesmo, parte do valor percebido pelo cliente de luxo, que não está comprando urgência, está comprando exclusividade e história. Colocar preço abaixo disso, mesmo cobrindo custo com folga, desvalorizaria a peça aos olhos de quem paga por ela.

A lista de espera como ativo

Renata Vasques

Você trata a lista de espera como um ativo do negócio, não como um problema operacional a resolver. Como isso funciona na prática?

Beatriz Camargo

Hoje temos trezentos e dez nomes na lista, para uma produção anual de cento e oitenta peças, o que sozinho já garante quase dois anos de vendas sem precisar de nenhum esforço novo de captação de cliente. Gerenciamos essa lista com transparência: cada cliente sabe a posição aproximada e recebe atualização a cada três meses. Isso, paradoxalmente, aumenta a taxa de conversão quando a vez chega, porque o cliente já viveu a espera como parte da experiência, e temos taxa de desistência de apenas seis por cento.

Renata Vasques

E isso não gera frustração que prejudica a marca, cliente esperando mais de um ano?

Beatriz Camargo

Gera, com uma minoria, e perdemos alguns clientes impacientes por causa disso, o que é aceitável. Mas o que descobrimos é que o cliente de luxo genuíno entende espera como sinal de que o produto vale a pena esperar. Quando reduzimos a espera artificialmente numa fase de teste, aceitando pedidos fora da ordem para acelerar caixa, a percepção de exclusividade caiu, e tivemos queda em pedido de indicação de clientes antigos. Voltamos ao modelo original em quatro meses.

Exportar sem perder identidade

Renata Vasques

Vocês exportam para quantos países hoje, e como evitaram que a expansão internacional diluísse a identidade brasileira do produto?

Beatriz Camargo

Exportamos para seis países, principalmente Estados Unidos, França e Japão, e essas vendas já representam quarenta e um por cento da receita. A regra que mantivemos foi nunca adaptar o design para agradar mercado estrangeiro; ao contrário, reforçamos elementos brasileiros, como o couro curtido com taninos vegetais nativos e padrões de trançado de origem indígena, feitos em parceria remunerada com uma cooperativa do Maranhão. Isso virou diferencial competitivo forte na Europa, onde luxo genérico sobra e história real de origem escasseia.

Renata Vasques

Como funciona essa parceria com a cooperativa, em termos comerciais e de reconhecimento?

Beatriz Camargo

Pagamos por peça de trançado entregue, com valor acima da média de mercado da região, e colocamos o nome da cooperativa e da técnica na etiqueta de cada produto que a utiliza, visível para o cliente final. Isso não é filantropia, é vantagem comercial: o cliente de luxo internacional paga um prêmio por saber que existe uma cadeia de produção rastreável e justa por trás da peça, e isso sustenta preço melhor do que qualquer discurso de marketing sem lastro.

Formar novos artesãos sem pressa

Renata Vasques

Você mencionou que formar um artesão no padrão do ateliê leva de três a cinco anos. Como funciona esse processo de formação, na prática?

Beatriz Camargo

Recebemos aprendiz sem experiência prévia obrigatória, porque preferimos formar do zero a corrigir vício de outra oficina. O primeiro ano é só corte e preparo de couro, sem tocar em costura de peça final. O segundo ano introduz costura em peças de treino, que descartamos ou vendemos como segunda linha com desconto grande. Só no terceiro ano o artesão começa a produzir peça que vai para o cliente final, sempre supervisionado por um sênior. Hoje temos três aprendizes nesse funil, remunerados desde o primeiro dia, porque não acredito em formação não remunerada como parte de um negócio sério.

Renata Vasques

Esse investimento em formação tão longa não é um risco, considerando que o artesão pode sair depois de formado?

Beatriz Camargo

É um risco real, e já perdemos dois artesãos formados para concorrentes ou para abrir oficina própria ao longo dos anos. Mas o risco de não formar é maior: sem pipeline próprio, ficaríamos reféns de um mercado de mão de obra artesanal que praticamente não existe pronto no Brasil. Também oferecemos participação em resultado para os artesãos mais seniores, o que ajuda a reter quem já passou pela curva mais difícil de aprendizado.

O risco de depender de poucas pessoas

Renata Vasques

Um negócio que depende de onze pessoas específicas parece frágil do ponto de vista de continuidade. Como você lida com esse risco de concentração?

Beatriz Camargo

É a fragilidade mais real do nosso modelo, e não escondo isso de ninguém, nem de investidor que pergunta. Mitigamos de duas formas: documentamos cada técnica em vídeo detalhado, algo que a geração anterior de artesãos nunca fez, e distribuímos conhecimento entre pelo menos dois artesãos por técnica específica, para nenhuma habilidade ficar concentrada em uma única pessoa insubstituível. Também mantenho seguro de homem-chave sobre mim mesma, porque sou a única que domina o desenho original de cada coleção.

Renata Vasques

Isso significa que o ateliê sobreviveria, hoje, se você se afastasse repentinamente?

Beatriz Camargo

Sobreviveria por um tempo limitado, talvez dois anos de estoque de desenhos já aprovados, mas perderia a capacidade de criar coleção nova sem mim, o que no médio prazo esvaziaria o motivo de o cliente pagar o preço que paga. Estou, há dois anos, treinando minha filha mais velha nessa parte de desenho e curadoria de coleção, justamente para reduzir essa dependência antes que ela se torne um problema real para a continuidade do negócio.

A tentativa de linha secundária mais acessível

Renata Vasques

Vocês já tentaram criar uma linha de produtos mais acessível, para capturar cliente que não pode pagar seis mil reais numa peça? Como foi essa experiência?

Beatriz Camargo

Tentamos, há seis anos, uma linha de acessórios pequenos, carteiras e chaveiros, com preço entre quatrocentos e oitocentos reais, pensando em atrair um público mais jovem que cresceria depois para as peças principais. O problema apareceu rápido: para viabilizar aquele preço, precisávamos reduzir o tempo de produção de cada peça pequena para menos de três horas, o que exigiu contratar mão de obra fora do padrão de formação longa dos nossos artesãos principais. A qualidade caiu, e pior, alguns clientes da linha principal passaram a associar a marca a um produto mais barato, o que gerou reclamação direta de dois clientes históricos.

Renata Vasques

E o que vocês fizeram diante desse efeito colateral na percepção da marca?

Beatriz Camargo

Descontinuamos a linha em dezoito meses, mesmo tendo vendido um volume razoável dela, porque o dano à percepção da linha principal era maior do que o ganho de receita da linha acessível. Aprendi, com um custo de aproximadamente trezentos e cinquenta mil reais entre investimento e reputação, que marca de luxo genuíno não sustenta duas propostas de valor diferentes sob o mesmo nome. Se eu quisesse atender esse outro público, precisaria criar uma marca completamente separada, sem o nome Sertã, e decidi que não valia o esforço de gestão de manter duas identidades simultâneas.

Conselho para quem está começando um negócio artesanal

Renata Vasques

Para quem está começando um negócio artesanal hoje, sonhando em algum dia chegar num patamar parecido com o do Ateliê Sertã, qual conselho prático você daria logo no início?

Beatriz Camargo

Não precifique pelo custo mais uma margem pequena só porque é isso que parece justo no começo. A maioria dos artesãos iniciantes subestima brutalmente as próprias horas de trabalho, cobrando um valor que mal cobre material, porque tem vergonha de cobrar pelo próprio tempo. Eu mesma fiz isso nos primeiros três anos, vendendo peça de vinte horas de trabalho por menos de mil reais, porque não sabia calcular meu próprio valor de hora. Recomendo montar a planilha de horas reais gastas, sem arredondar para menos, antes mesmo de pensar em quanto o mercado está disposto a pagar.

Renata Vasques

E depois de resolver a precificação, qual é o próximo erro comum que você vê em quem está começando?

Beatriz Camargo

Aceitar todo pedido que aparece, achando que recusar cliente é luxo que só quem já é grande pode se dar. No começo, é justamente o contrário: recusar pedido fora do seu padrão de qualidade ou do seu ritmo sustentável é o que constrói a reputação que, anos depois, permite cobrar o preço de escassez de que falamos aqui. Comecei recusando encomenda que exigia entrega em uma semana, porque sabia que comprometeria qualidade, e foi exatamente esse tipo de recusa, repetida ao longo de anos, que formou a reputação que hoje sustenta a lista de espera de catorze meses.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Beatriz, fechando: para quem toca um negócio artesanal e sente pressão para escalar, qual é o teste que você aplicaria antes de aceitar crescer?

Beatriz Camargo

Pergunte o que exatamente o cliente está pagando: é o produto físico ou é a escassez e a história por trás dele. Se for a segunda coisa, como é o nosso caso, escalar destrói o próprio motivo da compra. Nosso negócio prova que dá para ter margem de luxo, entre cinquenta e sessenta por cento sobre custo direto, sem volume, desde que você tenha coragem de dizer não para capital que exige crescimento incompatível com a proposta.

Renata Vasques

Números do episódio: vinte e duas horas de trabalho manual por peça, cento e oitenta peças produzidas por ano, lista de espera de trezentos e dez nomes com apenas seis por cento de desistência, e quarenta e um por cento da receita já vindo de exportação.

Beatriz Camargo

E o princípio de fundo: luxo artesanal genuíno não compete em escala, compete em paciência, e essa paciência precisa estar precificada com a mesma disciplina de qualquer outra decisão de negócio, não tratada como sentimentalismo.

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