Episódio 5

O restaurante que sobrevive ao terceiro ano

Felipe AndradeChef e sócio, Casa Tramela

CMV, escala de equipe e cardápio curto: a gestão pouco romântica que mantém um restaurante autoral aberto e lucrativo.

16 de abril de 2026 · 45 min

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O restaurante que sobrevive ao terceiro ano · 45 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

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Destaques do episódio

  • Cardápio menor, margem maior
  • Como ele calcula custo de prato de verdade
  • Retenção de cozinha em mercado disputado

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Felipe Andrade · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

O terceiro ano é o filtro

Renata Vasques

Felipe, o senso comum diz que restaurante quebra no primeiro ano. Você me disse que o filtro de verdade é o terceiro. Por quê?

Felipe Andrade

Porque nos dois primeiros anos você ainda está vivendo de fôlego: capital de abertura, curiosidade do público, tolerância do dono a tirar pró-labore baixo. No terceiro ano isso acaba. A novidade passou, o contrato de aluguel muitas vezes é renegociado para cima, e o dono já está cansado fisicamente. É quando a gestão pouco romântica aparece ou o negócio afunda. Da nossa geração de abertura, em um raio de oito quarteirões, sobreviveram quatro de onze depois do terceiro ano. Todos os quatro tinham uma coisa em comum: cardápio curto e ficha técnica de cada prato fechada em centavos.

Renata Vasques

Ficha técnica em centavos parece proposta de indústria, não de casa autoral. Como isso convive com criatividade?

Felipe Andrade

Convive porque a criatividade acontece antes do prato entrar no cardápio, não depois. Todo prato novo passa por uma planilha com peso de cada insumo, rendimento após limpeza, custo por porção e preço de venda sugerido para bater CMV de vinte e oito por cento. Se não bate, o prato muda de tamanho de porção ou de insumo antes de ir para a mesa do cliente. Assim a criatividade não vira prejuízo.

CMV como disciplina diária

Renata Vasques

Fala mais desse CMV de vinte e oito por cento. É meta única para o cardápio inteiro ou varia por prato?

Felipe Andrade

Varia. Nosso alvo geral de custo de mercadoria vendida é entre vinte e seis e trinta por cento, mas dentro disso eu componho o cardápio como uma carteira. Tem prato-âncora, como um risoto de cogumelos que já é conhecido, com CMV de trinta e dois por cento porque ele traz gente para a casa. E tem pratos de alta margem, como entradas com vegetal e queijo, com CMV de dezoito por cento, que sustentam a média. Sozinho, nenhum prato precisa ser perfeito. O cardápio inteiro precisa fechar a conta no fim do mês, com meta de vinte e oito por cento de média ponderada pelo mix de vendas real, não pelo mix imaginado.

Renata Vasques

E quando o preço de um insumo dispara, como carne ou azeite, o que muda primeiro?

Felipe Andrade

Primeiro eu tento engenharia de cardápio: reduzir a porção em dez, quinze gramas, quase imperceptível ao olho, ou trocar o corte sem trocar a experiência. Reajuste de preço vem depois, e é trimestral, nunca reativo a cada susto de fornecedor, porque cliente não perdoa cardápio que muda toda semana. Em dois anos, subimos preço três vezes, sempre entre seis e oito por cento, sempre avisando em cartaz na entrada.

Cardápio curto, decisão simples

Renata Vasques

Você reduziu o cardápio de trinta e dois pratos para dezenove. O que essa redução resolveu na prática?

Felipe Andrade

Resolveu estoque parado, desperdício e velocidade de cozinha. Com trinta e dois pratos, cada prato vendia pouco, o estoque de insumo específico envelhecia na câmara fria e a perda por validade vencida chegava perto de sete por cento do CMV total. Com dezenove pratos bem escolhidos, cada insumo é usado em pelo menos três receitas diferentes, o giro de estoque acelerou e a perda caiu para dois por cento. A cozinha também ficou mais rápida: tempo médio de prato pronto caiu de vinte e dois para catorze minutos, porque a brigada domina menos técnicas, mas domina de verdade.

Renata Vasques

Cortar prato é decisão emocional para um chef. Como você decide o que sai?

Felipe Andrade

Curva de vendas cruzada com margem, sem exceção afetiva. Todo prato que fica abaixo de três por cento do total de pratos vendidos no mês, por dois meses seguidos, entra em observação. Se não melhora no terceiro mês, sai, mesmo que seja meu prato favorito. Isso tirou do cardápio um prato que eu amava e que vendia sete unidades por mês. Doeu, mas a cozinha ganhou espaço de estoque e atenção para o que realmente girava.

Equipe: a conta que ninguém quer fazer

Renata Vasques

Folha de pagamento é o outro grande vilão do setor. Como você dimensiona a equipe sem parecer que está sempre no limite?

Felipe Andrade

Eu trabalho com custo de mão de obra entre trinta e três e trinta e cinco por cento da receita, medido semanalmente, não só no fechamento do mês. Cada funcionário tem uma escala que acompanha a curva de movimento real da casa, não uma escala fixa igual todo dia. Quinta e sexta a equipe de salão é maior, terça é enxuta. Isso significa contrato de meio período para três pessoas e banco de horas negociado com clareza desde a contratação. No início isso gerou rotatividade, porque parece instável para quem está acostumado com escala fixa.

Renata Vasques

E como você reduziu essa rotatividade sem abrir mão da escala variável?

Felipe Andrade

Compensando previsibilidade de renda com previsibilidade de horário. A pessoa sabe com quatro semanas de antecedência exatamente quais dias vai trabalhar, mesmo com carga variável, e tem piso garantido de horas mínimas por mês, mesmo em mês fraco. Rotatividade anual caiu de setenta e dois por cento para trinta e um por cento em dezoito meses. Isso também baixou custo de treinamento, que é invisível na demonstração de resultado, mas pesa muito na qualidade do prato que sai da cozinha.

Negociação com fornecedor: quem manda no preço

Renata Vasques

Além de ajustar porção e preço no cardápio, você também renegocia com fornecedor. Como funciona essa conversa na prática?

Felipe Andrade

Trocamos fornecedor único de proteína por dois fornecedores concorrentes na mesma categoria, mesmo sabendo que isso complica um pouco a logística de recebimento. Antes, um único açougue atendia noventa por cento do volume, e isso me deixava sem poder de barganha real: qualquer reajuste vinha como fato consumado. Com dois fornecedores disputando a mesma conta, que hoje representa cerca de cento e vinte mil reais por mês em compras, consigo cotação cruzada toda quinzena e uso a proposta mais barata como referência para negociar com o outro. Isso derrubou o custo médio de proteína em torno de nove por cento em um ano, sem trocar a qualidade do prato.

Renata Vasques

Isso não gera risco de queda de qualidade quando o fornecedor sabe que está competindo só por preço?

Felipe Andrade

Gera, se você não colocar especificação técnica clara no pedido. Toda compra vai com ficha de especificação: peso da peça, percentual de gordura aceitável, temperatura de recebimento. Recebimento que não bate com a ficha é devolvido na hora, documentado com foto, e isso entra no histórico do fornecedor. Em dezoito meses, tivemos apenas quatro devoluções registradas, e isso deu segurança para negociar preço agressivamente sem abrir mão de padrão. O fornecedor que perde qualidade perde volume de pedido no mês seguinte, e isso ele sabe.

Renata Vasques

Teve algum erro relevante nesse processo de reestruturação que você faria diferente hoje?

Felipe Andrade

Sim, o erro foi cortar cardápio rápido demais no início, sem aviso adequado ao cliente fiel. Tirei quatro pratos em uma única semana, sem cartaz explicando, e recebi reclamação direta de clientes antigos que sentiram que a casa tinha mudado de identidade da noite para o dia. Perdemos, por estimativa, cerca de quinze clientes recorrentes naquele mês. Hoje qualquer corte de prato é anunciado com duas semanas de antecedência, com cartaz e post explicando o motivo, e a receptividade é completamente diferente.

Conselho para quem está abrindo o primeiro restaurante

Renata Vasques

Para quem está abrindo o primeiro restaurante agora, com pouco capital de giro, o que você recomendaria como primeiro hábito de gestão?

Felipe Andrade

Fechar ficha técnica de cada prato antes de colocar no cardápio, mesmo que pareça burocracia desnecessária para uma casa pequena. Eu não fiz isso nos dois primeiros anos e só descobri, olhando para trás, que dois pratos do cardápio inicial davam prejuízo direto, mascarado pelo sucesso dos outros. Com planilha simples, de peso e rendimento, você evita abrir um restaurante inteiro sobre uma base de custo que ninguém calculou de verdade. Isso custa uma tarde de trabalho por prato e evita meses de operação no escuro.

Marketing sem inflar a expectativa

Renata Vasques

Você mencionou cartaz avisando mudança de cardápio. Como o marketing da casa se encaixa nessa disciplina de números que você descreve?

Felipe Andrade

O marketing só entra depois que a ficha técnica e o estoque já estão resolvidos, nunca antes. Vejo muito colega de profissão investindo em fotografia bonita e campanha de rede social para um prato que ainda nem tem margem calculada, e isso enche a casa de gente para vender prejuízo com volume maior. Nosso orçamento de marketing é fixo em três por cento da receita mensal, usado principalmente para reforçar os pratos-âncora que já sabemos que têm margem saudável e giro comprovado, não para lançar novidade sem teste. Uma campanha de lançamento só sai depois de pelo menos três semanas do prato rodando internamente, com garçom testando e cozinha cronometrada.

Renata Vasques

Isso significa abrir mão de aproveitar um hype passageiro nas redes sociais?

Felipe Andrade

Às vezes sim, e aceito essa perda. Vi um concorrente da região viralizar com um prato específico, encher a casa por seis semanas, e depois fechar as portas oito meses depois porque o prato viral tinha CMV de quarenta e quatro por cento e a operação não aguentou o volume vendido naquele preço. Prefiro crescimento mais lento e sustentável do que pico de demanda que a cozinha não consegue sustentar com margem positiva.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Fechando, se você tivesse que resumir em uma frase o que separa quem sobrevive ao terceiro ano de quem não sobrevive, qual seria?

Felipe Andrade

Quem sobrevive trata cada prato como um produto com ficha técnica, e não como uma expressão artística sem preço. A arte acontece dentro de uma margem definida antes de o prato existir no cardápio, não depois de o cliente reclamar da conta.

Renata Vasques

A MODO observa três números concretos neste caso. Primeiro, a redução do cardápio de trinta e dois para dezenove pratos derrubou a perda de estoque de sete para dois por cento do CMV e reduziu o tempo médio de prato pronto de vinte e dois para catorze minutos, mostrando que menos opções bem geridas superam variedade descontrolada.

Felipe Andrade

Segundo ponto que eu destacaria é a meta de CMV de vinte e oito por cento tratada como média ponderada de portfólio, e não como regra rígida prato a prato, o que permite manter pratos-âncora de menor margem para atrair público sem quebrar a conta geral.

Renata Vasques

E terceiro: a escala variável de equipe, com custo de mão de obra entre trinta e três e trinta e cinco por cento da receita, só funcionou quando trocou instabilidade por previsibilidade de horário, derrubando rotatividade de setenta e dois para trinta e um por cento em dezoito meses. Obrigada, Felipe.

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