Episódio 2

Agro com gestão de indústria

Teresa BianchiDiretora-geral, Fazenda Serra Clara

Custo por hectare, contrato futuro e governança familiar: a fazenda que passou a ser administrada como planta industrial.

26 de março de 2026 · 46 min

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Agro com gestão de indústria · 46 min

Transcrição do episódio narrada por voz sintética a partir do roteiro editorial.

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Destaques do episódio

  • Como ela mede custo por saca com honestidade
  • Travar preço sem apostar no câmbio
  • Profissionalização de time no campo

Transcrição completa da conversa

Diálogo integral entre Renata Vasques e Teresa Bianchi · 10 min de leitura · mesmo texto lido pela narração

Fazenda como planta industrial

Renata Vasques

Teresa, você descreve a Fazenda Serra Clara como uma planta industrial, não como uma propriedade rural tradicional. O que isso muda na prática do dia a dia?

Teresa Bianchi

Muda o nível de detalhe do controle de custo. Indústria mede custo por unidade produzida, com centro de custo separado por etapa. Nós aplicamos a mesma lógica ao talhão: cada um dos nossos quarenta e um talhões tem centro de custo próprio, com insumo, maquinário, mão de obra e depreciação de equipamento alocados individualmente, não diluídos em uma média geral da fazenda. Isso revelou que dois talhões vizinhos, com solo parecido, tinham custo por saca com uma diferença de vinte e dois por cento entre si, por causa de compactação de solo em um deles, que exigia mais passagem de máquina.

Renata Vasques

E antes dessa mudança, como o custo era medido?

Teresa Bianchi

Por média da fazenda inteira, dividindo custo total pela produção total, que é como noventa por cento das fazendas familiares ainda calculam. Essa média esconde exatamente os talhões problemáticos, porque o talhão bom compensa o ruim no papel. A gente só descobre o problema real quando quebra a conta por unidade de produção menor, exatamente como uma fábrica quebra custo por linha de produção e não por fábrica inteira.

Custo por hectare com honestidade

Renata Vasques

Fala sobre esse custo por hectare com honestidade que você menciona. O que costuma ser subestimado nessa conta?

Teresa Bianchi

Depreciação de máquina e custo de oportunidade da terra própria. Muita fazenda familiar não deprecia trator e colheitadeira de forma correta, porque o equipamento foi comprado há anos e já está quitado, então parece que não custa nada usá-lo. Mas ele desgasta, perde valor de revenda e vai precisar de substituição. Nós calculamos depreciação linear ao longo da vida útil estimada de cada máquina e incluímos isso no custo por hectare, mesmo que o caixa não saia naquele mês. Isso elevou nosso custo por hectare reportado de cerca de quatro mil e duzentos reais para cinco mil e cem reais, um aumento de vinte e um por cento só de correção contábil, sem gastar um real a mais de verdade.

Renata Vasques

Isso parece uma má notícia à primeira vista. Por que você trata como avanço?

Teresa Bianchi

Porque decisão de plantio, de troca de máquina e de expansão de área estava sendo tomada com base em um custo artificialmente baixo, o que gerava expectativa de margem que não existia de verdade. Com o número correto, a gente toma decisão pior no papel, mas certa na realidade. Descobrimos, por exemplo, que expandir para uma área arrendada que estávamos avaliando não fazia sentido com o custo real, e evitamos um investimento que teria dado prejuízo.

Hedge e contrato futuro

Renata Vasques

Você também trouxe disciplina de hedge para a fazenda, algo mais comum em mesa de operações financeiras do que em propriedade rural. Como isso funciona?

Teresa Bianchi

Nós travamos, via contrato futuro e opção na bolsa de mercadorias, entre cinquenta e sessenta por cento da produção esperada de soja antes do plantio, com base no custo por hectare que calculamos e em uma margem mínima que consideramos aceitável. Isso não é aposta em preço, é proteção. Se o preço sobe muito depois, deixamos de capturar parte do ganho na fração travada, e isso incomoda a família, que sente que perdeu dinheiro. Mas se o preço cai, e já caiu de forma relevante em duas das últimas cinco safras, a fração travada garante que a fazenda não opere no vermelho.

Renata Vasques

Como você convenceu a família a aceitar abrir mão de parte do ganho potencial em troca dessa proteção?

Teresa Bianchi

Mostrando o resultado das últimas cinco safras simulado com e sem hedge. Sem hedge, o resultado da fazenda tinha uma variação de mais quarenta por cento a menos vinte e cinco por cento de margem, ano a ano, o que é insustentável para planejar investimento de longo prazo. Com hedge parcial na fração que travamos, essa variação caiu para uma faixa entre mais vinte e dois por cento e menos cinco por cento. A família prefere ganhar menos no ano bom e não quebrar no ano ruim, mas isso só ficou claro quando colocamos o número na mesa.

Governança familiar como processo

Renata Vasques

Governança familiar costuma ser o ponto mais delicado nesse tipo de negócio. Como a Serra Clara organiza isso hoje?

Teresa Bianchi

Temos uma reunião trimestral de família separada da reunião de gestão da fazenda, com pauta própria, onde discutimos distribuição de resultado, sucessão e expectativa de cada geração, sem falar de talhão ou de insumo. Isso separou duas conversas que antes se misturavam e viravam conflito: decisão técnica de plantio virava debate familiar, e mágoa familiar antiga aparecia em decisão de compra de máquina. A separação levou cerca de um ano para pegar, porque a família estava acostumada a discutir tudo junto, mas hoje as duas reuniões têm atas separadas e decisões rastreáveis.

Renata Vasques

E quem participa da decisão técnica, se não é mais a reunião de família inteira?

Teresa Bianchi

Um comitê de gestão com três pessoas: eu como diretora-geral, o agrônomo responsável e um consultor financeiro externo contratado especificamente para dar segunda opinião sobre investimento acima de determinado valor. Decisão técnica de mais de trezentos mil reais precisa da aprovação desse comitê, não de um único membro da família por conta própria, o que já evitou pelo menos duas compras de equipamento superdimensionado para o tamanho real da operação.

Financiamento e relação com o banco

Renata Vasques

Como fica a relação da fazenda com o banco depois que vocês passaram a apresentar números com esse nível de detalhe?

Teresa Bianchi

Mudou completamente a taxa que conseguimos negociar. Antes, apresentávamos ao banco uma projeção de safra genérica, por fazenda inteira, e o gerente aplicava uma taxa de crédito rural padrão para o perfil médio do cliente da região, em torno de CDI mais seis pontos percentuais para capital de giro. Com relatório de custo por talhão, plano de hedge documentado e histórico de três safras de acerto entre projeção e resultado real, renegociamos para CDI mais três vírgula oito pontos percentuais em uma linha específica, porque o banco reduz seu próprio risco quando enxerga controle de gestão detalhado. Essa diferença de taxa, em um volume de crédito de cerca de seis milhões de reais por safra, representa uma economia perto de cento e trinta mil reais por ano só de juros.

Renata Vasques

O banco pediu alguma contrapartida de transparência contínua para manter essa taxa melhor?

Teresa Bianchi

Pediu, sim, relatório trimestral de acompanhamento de safra, com atualização de custo por talhão e posição de hedge, mesmo fora do período de renovação do crédito. No início parecia trabalho extra sem benefício direto, mas isso virou uma disciplina que também nos ajuda internamente, porque nos obriga a manter os números atualizados o ano inteiro, e não só na época de buscar financiamento. Hoje vejo isso como um dos maiores ganhos indiretos da reestruturação: a exigência do banco virou rotina de gestão nossa mesmo.

Clima e o limite do controle

Renata Vasques

Com todo esse controle de custo e hedge de preço, o que ainda escapa do controle da fazenda e como vocês lidam com isso?

Teresa Bianchi

Clima continua fora do nosso controle, e nenhuma planilha resolve seca ou excesso de chuva na hora errada. O que mudou foi como nos preparamos para esse risco: contratamos seguro agrícola paramétrico para cerca de setenta por cento da área plantada, que paga indenização com base em índice de chuva medido por estação meteorológica da região, sem precisar de perícia demorada em cada talhão depois do prejuízo. Tivemos um ano de quebra de safra por seca, com produção vinte e oito por cento abaixo do esperado, e o seguro cobriu cerca de sessenta por cento da perda financeira daquele ano, o suficiente para não comprometer o pagamento do financiamento em andamento.

Sucessão e o papel da próxima geração

Renata Vasques

Você é da segunda geração à frente da Serra Clara. Como está sendo preparada a transição para a terceira geração, com essa estrutura de gestão mais profissionalizada?

Teresa Bianchi

Criamos uma regra de entrada que não existia na minha geração: qualquer membro da família que queira assumir cargo de gestão na fazenda precisa primeiro trabalhar pelo menos três anos fora, em outra empresa, preferencialmente do agronegócio, e depois passar por um processo seletivo igual ao de um candidato externo, avaliado pelo mesmo comitê de gestão que aprova investimento. Isso evita o problema clássico de herdeiro assumir cargo de comando sem experiência prévia e sem ter provado competência fora do conforto do sobrenome da família. Hoje temos dois sobrinhos em processo de formação externa, e nenhum deles tem cargo garantido na fazenda só por ser da família.

Renata Vasques

Isso gerou resistência de algum membro mais tradicional da família?

Teresa Bianchi

Gerou, principalmente do meu tio, que via essa regra como desconfiança em relação aos próprios filhos. Levou quase dois anos de conversa, com apoio do consultor externo do comitê, para a família aceitar que a regra protege tanto a fazenda quanto os próprios herdeiros, porque ninguém assume um cargo de trinta milhões de reais de patrimônio sob pressão só pelo sobrenome, sem preparo real para lidar com essa responsabilidade.

Diversificação de cultura como proteção adicional

Renata Vasques

Além do hedge financeiro que você descreveu, a fazenda também diversificou o tipo de cultura plantada. Isso faz parte da mesma lógica de proteção de risco?

Teresa Bianchi

Faz parte, sim, é outra camada de proteção, mais estrutural do que financeira. Éramos praticamente cem por cento soja há oito anos, e hoje mantemos cerca de sessenta e cinco por cento da área com soja, vinte por cento com milho safrinha na sequência, e o restante dividido entre algodão e uma pequena área de pecuária de recria, que também aproveita pasto de rotação entre safras. Essa diversificação reduz a dependência de um único ciclo de preço de commodity e também melhora o solo, porque a rotação de cultura diminui a necessidade de defensivo e melhora a estrutura física do solo ao longo dos anos, o que por sua vez reduz custo de insumo no médio prazo.

O que a MODO observa neste caso

Renata Vasques

Teresa, fechando, qual é o principal aprendizado de tratar uma fazenda com disciplina de gestão industrial?

Teresa Bianchi

Que o solo perdoa erro de gestão por um tempo, mas não para sempre. A vantagem de aplicar rigor industrial cedo é que você corrige o talhão problemático antes que ele vire prejuízo estrutural de vários anos.

Renata Vasques

A MODO observa que o custo por hectare, calculado com depreciação correta, subiu de cerca de quatro mil e duzentos para cinco mil e cem reais, uma correção contábil de vinte e um por cento que evitou decisão de expansão equivocada, mesmo sem gastar um real a mais.

Teresa Bianchi

Também vale destacar a diferença de custo por saca de vinte e dois por cento entre talhões vizinhos, só visível quando o centro de custo deixou de ser a fazenda inteira e passou a ser cada talhão individualmente, igual a uma linha de produção industrial.

Renata Vasques

E terceiro: o hedge parcial entre cinquenta e sessenta por cento da produção reduziu a variação de margem entre safras de uma faixa de mais quarenta a menos vinte e cinco por cento para uma faixa de mais vinte e dois a menos cinco por cento, ao custo de abrir mão de parte do ganho em ano excepcional. Obrigada, Teresa.

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